Utopia
19/10/2011
Se o nosso amor continuar a ser utopia, continuará a ser o nosso amor. Que se procura para sempre e parece nunca achar, mesmo depois de abraço, beijo, corpo suado. Mesmo depois de muito tempo passado. A parte sua que eu não sei é utopia, o amor para para sempre se descobrir. De lua e sol, das nossas manhãs. Daqueles pássaros loucos que de tanto amarem nos acordaram de madrugazinha com seus pios. Nunca me cansa achar que talvez eu não tenha te conhecido, que eu não te conheça tão bem – nem nunca vá. Me falta você, mesmo do meu lado, já sinto a falta de você. Não sei quem somos e só do nosso amor-utopia sei pouco, estou procurando e no caminho te amando.
A jornada
11/08/2011
Se eu soubesse exatamente a que, fim isso tudo levaria e se soubesse que seria bonito o tal fim, escreveria um interím cheio de percalços mirabolantes, de altos e baixos, de lágrimas profanas, de medos, de fome, de tudo o quanto há neste mundo. E a jornada criada e vivida teria valido a pena. Mas quando paro, sei que o que descrevo não é senão uma descrição da própria vida. Sendo a vida que se vive uma, não há como errar, mesmo o erro é certo, ele é o acontecimento. Sigo acontecendo. O tempo todo me perguntado se o que estou acontecendo é o melhor. E se os nossos acontecimentos continuarão juntos mesmo longe. E mesmo que o longe não passe de culpa minha. E, ainda sim, acontecendo, as dúvidas aconteçam na mesma intensidade… Eu sei o fardo que criei para mim. E mesmo pesado escolhi carregar. Sem certo. Sem errado. Culpa é inerente. Vontade também. Quando me pego em prantos – acontecimentos – lembro que a escolha fiz há tempos. Mudei sim, mas os sonhos não aconteceram. Mudo de sonho?
O medo dos homens
21/07/2011
Assusta-se a pessoa que se depara com a fragilidade da vida. Que ao contrário dos nove meses que a mãe espera, a morte concretiza-se de um segundo para o outro. Mata, na verdade, entre esses dois segundos, em um instante de tempo que até deus desconhece, mas que nenhum homem duvida. Espanta-se quem recebe o aviso de que a morte é tudo do que se corre, mas também tudo de mais simples. Nem deus conhece a morte, porque dela voltou. Só resta aos homens arrancados da vida enquanto viviam a própria.
No meio do ano
02/07/2011
No meio do ano tudo muda, mudou ou mudará? Na metade em que estamos, devemos lamentar a meia dúzia passada ou comemorar a meia dúzia por chegar? Meias dúvidas.
Onde tudo acontece
05/05/2011
Digamos que às vezes eu sinta uma saudade incontrolável de tudo o que nunca tive. Porque é mais fácil sentir falta das coisas que só imaginamos. Onde tudo funciona: na imaginação. Lá moram diálogos cinematográficos, tempo eterno, dias de 36 horas intermináveis. É lá que mora sol e chuva nos momentos certos e frio só de brincadeira. Onde cada um tem seu papel definido. É a terra da certeza. Mundo das marionetes controladas.
Onde tudo funciona: em pensamento. Lá vivem as mais deturpadas maquinações cerebrais. É onde uma só pessoa interpreta todos os papeis a seu bel-prazer e sabe perguntas e respostas para todas as falas. Não há dúvida, não há contraditório. Não existem versões de uma mesma história. Não há surpresa num sonho: tudo o que nele acontece é maquinação própria e sua. Pena que não conheça bem seu inconsciente. Onde tudo tem lógica: no sonho. Lá vivem os chorinhos de quem está em um pesadelo e sofre mesmo sabendo que não é nada. Lá, consciência e inconsciência voltam a se comportar como irmãs. Onde tudo acontece: na vida.
Poros
14/04/2011
Enquanto ele mantinha a porta aberta, ela ia fechando todas, inclusive as janelas. Lacrava quase tudo o que pertencia ao reino do coração, ao micromundo que construiu com ele. Ela fechava, ele abria. Ela lacrava, ele corria. De súbito percebeu-seu louca ou quase. Mosca que persegue gente, sabe? Era uma delas. Aquelas moscas-mosquitinhos loucos que nos infernizam ao rodopiar. Rondam em tudo. Querem entrar dentro de nós, esses mosquitinhos. Rondam nossos olhos para comê-los. Querem entrar em nossas peles como se coubessem nos poros. Era o que ela sentia às vezes – vontade de entrar tanto dentro dele que era melhor se pequena como um poro, escorrida como um suor, ser fina como um pêlo, redonda como uma pintinha, ardente como bicarbonato de sódio.
Ploc, ploc
14/03/2011
Eu tento me expressar, mas tudo o que sai são pedras. Ploc, ploc. Pedras. Um nó na barriga. Pedras, ploc, ploc. Fraqueza, desmanche, leve tontura. Tremor de mãos: é tudo minha expressão. Lágrimas já nascidas secas. Medo, pertubação. Leve desmanche. Situação febril. Dentro de mim tudo explode e dói tanto. Pedras, ploc. Quando foi que o nosso amor virou pedras, ploc, ploc? Surgidas em nosso caminho, as pedras. Eu tento me expressar, mas tudo o que expresso é desejo de morte. De que findará. Ploc, ploc, tropeço nelas. Ploc, chuto-as – mas voltam como bumerangue. Por onde quer que eu ande, sem sossego estarei. Ploc, ploc: decreto sua inutilidade. Desejo de que findará, pedra maldita. Desejo de morte.
A vizinha
20/02/2011
Pela janela, vejo pendurados uns pares de calcinhas, meias e três sutiãs lavados. As cores seguem uma tonalidade só dela: rosa e preto predominam, por vezes vermelho, outras marrom ou branco. Sugerem uma sensualidade só dela, as fitas pequenas, as rendas, os filós.
Ah, aquela mulher! Sei pouco sobre ela e o que sei não passa de observação ou do que pude apreender no dia em que olhou para o alto e me viu pendurado na janela. Dei um sorriso curto de meia boca e ela olhou de volta e disse com a voz pequena: “oi!”. No cumprimento rasteiro, vislumbrei seu corpo vestindo todas aquelas fitas e rendas que eu via penduradas no varal. Vi sua pele grossa saindo da bermudinha do pijama. E a fartura toda com que andava.
“Oi!”, ressoou a noite toda enquanto eu sonhava. E no sonho a conversa seguia: “tudo bem, menino?”. Eu sem camisa na janela, pra ver se ela me reparava. Os dias que seguiram foram os mesmos. Eu olhando, ela passando. Molhava as plantas e se agachava. Ah, a bermudinha. As roupas penduradas. Eu acompanha a mudança de cores no varal. Rosa e preto, marrom e branco, preto, bege. “Toda mulher tem sem momento calcinha bege”, dizia sorrindo para alguém que não eu. Os ciclos seguiam o da sua menstruação, e eu já sabia mais sobre ela do que sobre mim – ou mais do que ela pudesse saber sobre si mesma.
Sabia sobre suas desaparições mensais, seus gemidos na janela abaixo, as roupas lavadas: tudo me contava sobre o que tinha feito, com quem tinha estado, onde. Se fora ao clube ou a uma festa. Com quantos homens dormira. Se fazia chuva ou se fazia sol, se era tempo frio.
Eu não era mais menino – como no sonho que me dizia, “tudo bem, menino?” – mas deixava de ser homem a cada dia, me esquecia só para lembrar dela, imaginá-la. Eu fui sumindo na janela. Morri. Fiquei invisível: estava apaixonado.

