02Dez09

Eu vim aqui porque eu queria escrever, mas é tanta coisa, que embola tudo.


Sabotagem

01Dez09

Eu vou acordar cedo. Eu vou na academia. Eu vou chegar na hora. Eu não vou correr contra o tempo (nem atrás do ônibus). Eu vou comer coisas saudáveis. Eu não vou comer o pão com recheio de chocolate. Eu vou sair pra trabalhar na hora certa. Eu não vou me atrasar. Eu não terei raiva do trânsito nem nojo do ônibus e do calor. Vou sair do trabalho na hora certa, prestar atenção na aula. Eu não vou comer o lanchinho e tomar refrigerante no intervalo. Eu não vou ter mau humor. Não vou brigar. Eu vou lavar o rosto na água fria, porque faz bem pra pele.

Mas é pura sabotagem. Autosabotagem. Self-sabotagem. Porque é sempre o contrário. É sempre atraso. Sempre desilusão comigo. Sabotagem todos os dias. Infernal.

1, 2... no 3, grite!


Não use

24Nov09

Se você é mulher, bonita e preza pela boa aparência e elegância, não use o objeto abaixo (vulgo: piranha) em público. Destrói qualquer roupa.

No salão e em casa pode.

 


Scream poetry

19Nov09

Digamos que tem muito tempo que eu não sei o que é ficar em casa de noite. Chegar da rua e ver novela. Falar ao telefone deitada na cama. Ouvir as músicas velhas que me completam e me fazem feliz há muitos anos. Fazer as coisas tradicionais, de sempre. Hoje estou assim (mas logo já vou sair de novo).

Eu posso sentir o que a paixão faz em segundos. Eu posso sentir o que o amor fez em questão de anos. Eu gosto de sentar nos telhados pra ouvir o que as casas dizem ao meu redor. Grite poesias. Scream poetry. A febre de um sábado azul, te esquiva do teu próprio coração. O que eu posso ser pra você? O primeiro homem a pisar no sol… só pra ver o gelo da dor derreter.  Eu trago um anjo nos braços, e outro no coração. Sempre atrasada, sempre iludida. O tempo, os homens, a marca de noites e dias mal vividos, nada disso te perdoou.  Tudo está no lugar em que não devia. Dias são iguais. Um estranho no espelho, eu quase não me conhecia. Não há do que reclamar, tudo caminha… E as horas passam devagar num ônibus de linha.

Ver você, é ver na escuridão.

eu gosto de subir nos telhados porque eu consigo ver o mundo melhor

Pensar que tudo isso vem do disco Hey na na (dos Paralamas) que escuto há mais de dez anos. O que muda em dez anos?


Não sei o por quê. Mas sempre amei as borboletas. Desde pequenina.

Lembro-me bem da infância nas casinhas geminadas separadas por murinhos baixos que eram, na verdade, canteiros onde a gente plantava erva-cidreira, rosas pequenas e outras coisas. Pulei muito aqueles murinhos para ir direto para a casa das vizinhas, sem ter que passar na rua e abrir portão. Era tudo junto.

No meio das plantas, os bicihinhos. Uma abelha do mal chegou a me picar malvadamente. Mas a lembrança boa é de um dia que passei uma tarde inteira com uma borboleta. Não lembro vem da cor dela, devia ser dessas mais comuns cor-de-laranja-com-preto.

Ao que a memória infantil permite lembrar, encontrei ela caída na sala de casa e fiquei cuidando dela a tarde toda, para que ficasse boa. No fim da conversa, soltei-a na liberdade no mini-jardim do murinho.

Foi-se.

Anos depois, na pré-adolescência. Fomos visitar um amigo muito querido (antigo vizinho de murinho das casas geminadas), que passou a morar longe.

No meio da tarde, os adultos tomavam vinho em grandes taças redondas. E eu nadava em uma pequena piscina oval. Eis que chega ela. Não a mesma, claro. Mas uma imensa e divina borboleta azul-turquesa. Gigante.

Ela para. Como pluma pousa na beirada de umas das grandes taças redondas e bebe do vinho. A imagem é incrível, por isso ficou comigo. Ela bebeu, conversou e foi embora.

Agora hoje, depois de tanto tempo.  Eu adulta – se posso dizer – e ela vem de novo. Não a mesma, claro. Mas é uma borboleta. A maior de todas que eu já vi. Não tão bonita quando a azul-turquesa, nem tão infantil como a cor-de-laranja-com-preto. Em tons de marrom e transparências ela veio barulhenta. Grudou na cortina e ficou lá, cumprindo se papel de conversar comigo.

Bem na hora que eu precisava.


Triz

02Nov09
arcoiris

No final da estrada estava o arco-íris.

 

O feriado foi ótimo: com chuva, sol e arco-íris. E muita diversão. Mas também foi por um triz: s. m. quase nada, pequena diferença; átimo. por um t. quase, por uma fração de segundos, por pouco; por um fio, por uma linha. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).


Hoje preenchi um formulário para participar de um sorteio de livros de um Encontro que estou participando (começou hoje).

Formulários são coisas que me provocam prazer. O ato de preencher. Nessas fichas, escreve-se – meio que por osmose ou inércia – dados que são as primeiras palavras que se aprende na vida.  Nome. Minha data de nascimento. Sabe-se com facilidade endereço, cep, email e vai…

Mas uma pergunta não foi respondida com a naturalidade de quem aprendeu algo há anos e por isso preenche no piloto automático.

Profissão: estudante jornalista.

Para quem estudou 17 dos 22 anos de sua vida, de repente mudar de profissão (mesmo que com orgulho do que tornou-se) é puro estranhamento.

Mas que há de passar rápido.

Na época da formatura, fui questionada assim por uma pessoa querida: "1) Você tem medo de quê? Barata, altura, cachorro? Todas as anteriores? 2) Você tem fome de quê? Bananas, jornal, biscoito O Globo? Nenhuma das anteriores? 3) Ser jornalista é: ato de bravura? insanidade diplomada? complexo de Lois Lane?" Acho que respondi "insanidade diplomada", mas poderia ter respondido "as três anteriores", se houvesse a opção.


Escrever feliz

25Out09

Eu queria escrever pela felicidade de um dia que termina como o de hoje. Com o calor do início, tempo abafado, chuvinha do final. Tranquilidades ansiosas. Amor demais. Queria muito que fosse fácil falar de felicidade em palavras, que não em sorrisos e olhares, simplesmente. É porque escrever é muito bonito, mas díficil descrever alegrias e sua beleza.

Eu não quero me sentar aqui e terminar esse dia tão bom escrevendo sobre o que de triste ele me trouxe, só porque é mais fácil escrever sobre o que é triste, sobre o que decepciona,  sobre o que enerva. Ao invés disso tudo, me absolvo pelo menos pela tentativa de deixar tudo nas entrelinhas, e terminar esse texto feliz.

Um dia feliz nem é tão raro assim, depende do olhar.

Um dia feliz nem é tão raro assim, depende do olhar.


As sombrinhas poderiam chamar chuvinhas.

As sombrinhas poderiam chamar chuvinhas.

Histórico: Madrugada chuvosa em Belo Horizonte. Acordei com o barulho forte da chuva e fechei a janela do quarto. Frio. Caíram três raios muito perto da minha casa, denunciados pelo clarão no quarto e – quase sem intervalo – o trovão. Ahhhh! Confesso que fiquei com medo. Não sei bem do quê, mas deixei de levantar para ir ao banheiro por isso. Dormi. A manhã não acordou melhor, e a chuva continuou firme. Perdi a hora, mas comprei briga comigo de que ia sim sair de casa e ir trabalhar.

Depois de todo esse percurso chuvoso, madrugada nervosa, manhã chuvosa, pude de novo comprovar algo que tenho observado desde que a primavera começou: eles não usam guarda-chuva. Se chove pouco (chuva de molha-bobo), eles não usam guarda-chuva e são os bobos que a chuva gosta de molhar. Se chove muito, eles se escondem debaixo das marquises ou correm na chuva. Eles ficam com cheiro de cachorrinho molhado. São homens, que por orgulho ou sei lá não gostam de usar guarda-chuva. Não o têm. Perdem com facilidade. Preferem molhar, não ir, ou ligar para que as mulheres os busquem (!).

A dupla guarda-chuvas e sacolinhas plásticas só habita as bolsas femininas…


Presente-futuro

19Out09

O que importa é o presente.  Diferença não faz se foi feliz um dia se não o continuou a ser no depois. Quando a gente presta atenção, defeito nosso é ficar sempre vivendo em função de planos futuros, em uma espécie de presente-futuro.  E o presente, logo quando se torna passado, não importa mais. Agora, já passou. (Arnaldo Antunes) Pode-se contar glórias vividas e memórias e mais memórias, mas se o passado é infinitamente melhor que o presente, agora não adianta quase nada.

Penso nisso ao ver pessoas velhas. Não importa a vida que teve, se não souber existir na velhice, terá vivido em partes, pois não estará vivendo mais. Não importa muito se você foi uma criança linda. Cresce-se. A Simony cresceu. A Maísa também vai crescer, e se não souber ser “artista” ainda, não valerá nada mais para o presente-futuro.

Pouco importa se a família é grande e reunida, um dia o tempo vai passar. E aos poucos, sem nem ver, as pessoas irão para outro lugar. Ficarão doentes, crianças crescidas, novas ordens estabelecidadas, novos modos, novos lugares para ir, novas fotos. Às vezes eu tenho medo do presente-futuro, porque sei que o que eu mais amo hoje vai passar, por mais que o tempo vá me trazer sempre novas coisas para amar.