São quase oito horas da noite. Mas o sol não se põe cedo ultimamente. A cidade está em chamas, agitada – hoje é dia de jogo no Mineirão. Quase oito da noite e a cidade que não queria descansar. E o sol também não ajudava em dar logo lugar à calma luz da noite. Quase oito horas, e o horizonte esverdeado. Com um contorno de nuvem cinza de contraluz. Nunca tinha visto um céu assim – tão verde, de bordas cinzas e luzes laranjas. Era sol de oito da noite na cidade do horizonte bonito que não se vê. Ao redor prédios e prédios. Da janela do ônibus quase não se vê. Esforço grande do olhar de quem não quer ficar preso na rotina de quem só olha para os pés e só para aquilo que alcança os olhos na altura do ombros.

Olha mais. Olhar mais, por favor! O céu está verde e ninguém viu. Era medo ou ignorância, ou cegueira. Ou era alucinação minha. No trânsito lento da cidade do belo horizonte. Da janela do ônibus quase não se vê se não fizer o esforço de olhar.


Sem título

21jan10

Não sei bem o que é, mas hoje fui invadida por um sentimento ruim depois do dia de trabalho – com chuva de granizo e queda de energia. Saí correndo para a academia e cheguei em casa pior do que fui. Tonta. Tudo roda ao meu redor desde então. Comi mas não adiantou muito. Nem saí de casa como era previsto. Nem conseguimos resolver nada. Deve ser o calor, ou a chuva de gelo, deve ser por causa da fome que sinto, ou pelo sono. Ou pelas mudanças de planos. Ou pelas responsabilidades. Ou por essa fase da vida onde tudo que se faz, fala e come é trabalho. Ou talvez para sempre seja assim. Ou então mesmo só hoje é o problema. Boa noite!


“Num dia de verão abri a janela de par em par. Pareceu-me que o jardim entrara na sala. Eu tinha vinte e dois anos e sentia a natureza em todas as fibras. Aquele dia estava lindo. Um sol mansinho, como se nascesse naquele instante, cobria as flores e a relva. Eram quatro horas da tarde. Ao redor, o silêncio.

Voltei-me para dentro, amolecida pela calma daqueles momentos. Queria dizer-lhe:

-Parece-me que essa é a primeira das horas, mas que depois dela mais nenhuma se seguirá.

Mentalmente ouvi-o responder:

-Isso é apenas uma tendência sentimental indefinível, misturada à literatura da moda, muito subjetivista. Daí essa confusão de sentimentos, que não tem verdadeiramente um conteúdo próprio, a não ser o seu estado psicológico, muito comum em moças solteiras de sua idade…

(…)

Meus lindos e luminosos vinte e dois anos… Mandei vir café com muito açúcar.”

Quando ela (Clarice Lispector) tinha 22 anos (ou aproximadamente), escreveu o conto "História Interrompida", publicado muito depois no livro "A Bela e a Fera". Ganhei-o de presente do meu namorado neste Natal. Leio-o na tal idade luminosa.


Descobri que tenho medo de escrever. Misturado com preguiça. Explicarei.

Até quando meus registros permitem lembrar, comecei a escrever em abril de 2002. Eu tinha 15 anos. É claro que escrevia antes disso, desde os 3 anos criava letras de músicas infinitas sobre Papai Noel e chocolate Batom, tive diários como toda boa garota, escrevia livros todos os anos com o incentivo da escola etc. Mas foi em 2002 que inaugurei meu primeiro caderno de poesias; e até o final daquele ano já havia completado um caderno e meio com poemas adolescentes (alguns deles viraram letras de músicas da minha extinta banda punk). Em 2003,  comecei a escrever em prosa e nunca mais parei. Desde então, revezo entre o computador, o blog e o caderno, e produzi uma infinidade de arquivos da minha vida, todos guardados, mas mais desorganizados do que eu gostaria.

A questão sobre o medo de escrever e a preguiça, tem relação com o sonho de escrever um livro. Parece um sonho comum, mas é real em mim. Não sei sobre o que exatamente escreveria. Uma certa vez um amigo que me disse que eu mesma seria o tema do livro. Tenho também vontades de criar narrativas fantásticas incríveis. Ou ao menos escrever uma longa prosa em fluxo de consciência como faz bem a Clarice.  Ou ao menos contos, crônicas. Ah! Mas cada vez que penso uma história, que observo o mundo com olhos de criação, a ideia toda se desenrola em uma segundo do começou ao fim. E logo depois surge a preguiça de escrever em um livro todo aquela ideia que eu consegui pensar inteira em apenas um segundo. Esse é o problema da linguagem, ela nos falta. Até mesmo falar para um gravador o que eu supostamente poderia escrever é perder a mesma ideia inteira de um segundo. A linguagem rouba a espontaneidade daquela ideia e eu fico paralisada. Com medo e preguiça.

Esse blog é uma tentativa de fugir disso, mas continua sendo um blog, e não um livro.


Terminei 2008 sabendo que em 2009 seria minha formatura. Além disso, o único plano que fiz foi de que iria começar a fazer aula de dança do ventre (isso porque no fim do ano fui em uma festa latina fantasiada de Shakira e terminei 2008 com vontade de saber dançar com o ventre como ela). 2009 começou e até cheguei a ligar para escolas de dança do ventre. Mas o ano foi me consumindo e nada. Só fui fazer exercício físico mesmo no meio dele, em julho, e foi na academia.
O primeiro dia do ano: chuva torrencial, trabalhar na rádio. E, apesar de uma virada de ano conturbada, 2009 foi muito além das expectativas que eu nem tinha. Foi quando*:

Comecei a usar filtro solar, saí da rádio, me desesperei para encontrar estágio (mas logo entrei n’A Obra). Show da Alanis em Belo Horizonte. Desespero com início do projeto de conclusão curso, formar ou não formar no primeiro semestre – eis a questão, Carnaval no sítio. Pronto-socorro, aulas de aquarela em pintura A, 15 anos em JF, escova-progressiva e ninguém me reconhecendo, 22 anos e muitos presentes, perder a cabeça com o Maria-Mulher-de-Película. Dirigir na estrada, reforma aqui em casa.

Michael Jackson morreu e eu chorei, gripe suína me deixou com nojo de andar de ônibus, Cruzeiro vice na Libertadores.  Em julho, formei com louvores. Jornalista! Fui me cuidar depois. Suspeita de sopro-no-coração, entrar na academia e emagrecer (depois engordar de novo), formatura da Renata,  preparativos da minha formatura, enlouquecer com a comissão de formatura (e mil contas), formatura e mil coisas para resolver. Primeiro emprego com carteira assinada,  começar a pós-graduação e conhecer gentes e coisas novas. Mais um ano de namoro comemorado, semana da formatura, casa mal-assombrada, começar a aprender francês, banda que vai e volta toda hora,  descobrir que dizem que o mundo acabará em 2012.

Ouvi pouca música, li menos e vi menos filmes do que eu queria. Fui assaltada pela primeira vez (bolsa encontrada). Juntar dinheiro ao longo de ano e ter dó dele. Montar minha biblioteca, sonho dos dicionários realizado, começar a ter um cartão de crédito, não ter tempo nem para comprar roupas, mas conseguir manter as unhas (quase) sempre feitas, conhecer Leopoldina, acreditar-se cada vez mais mulher, voltar usar brincos.  Conhecer São Paulo melhor, amar as crianças, a família e o amor. Ter desejos de cozinhar bem. Comprar meu primeiro móvel (um armário gigante para Itajubá). Terminar o ano com poucas garantias para 2010, a não ser que tem Cruzeiro na Libertadores, Copa do Mundo e eleições.

Em 2009 meu aniversário foi na quarta-feira. Em 2010 será na quinta.

*sonharia eu conseguir lembrar de mais coisas. Mas essa retrospectiva é um esforço para não terminar o ano dizendo que nada aconteceu, porque é mentira, claro.


Cheiro de 2003

31dez09

No dia em que fiz minha primeira aula de bateria, comprei uma bola. Aquelas de plástico, grandes. Desse tipo. Minha mãe estava comigo. Era 2003, um ano em que várias coisas começaram e me fizeram ser quem sou. Comprar a bola foi uma dessas vontadezinhas que a gente tem há um tempão e um dia se realiza ao realizá-la. Eu tinha 16 anos e parece que pouco mudou de lá para cá. De lá pra cá também a bola esteve comigo. Aqui pela casa, divertindo a gente e marcando meu tempo.

Ontem cheguei da viagem ao sul de Minas e comecei a limpar a casa. Quase 2 da madrugada quando acabei. Limpar tudo foi meio que uma despedida de 2009. Foi quando vi bola. Ela já bem murcha, com o plástico bem velho. Peguei uma tesoura e furei-a. Sem hesitar. O cheio do ar que saiu de dentro é que não me sai da memória agora: cheiro de 2003. Ar de 2003.


02dez09

Eu vim aqui porque eu queria escrever, mas é tanta coisa, que embola tudo.


Sabotagem

01dez09

Eu vou acordar cedo. Eu vou na academia. Eu vou chegar na hora. Eu não vou correr contra o tempo (nem atrás do ônibus). Eu vou comer coisas saudáveis. Eu não vou comer o pão com recheio de chocolate. Eu vou sair pra trabalhar na hora certa. Eu não vou me atrasar. Eu não terei raiva do trânsito nem nojo do ônibus e do calor. Vou sair do trabalho na hora certa, prestar atenção na aula. Eu não vou comer o lanchinho e tomar refrigerante no intervalo. Eu não vou ter mau humor. Não vou brigar. Eu vou lavar o rosto na água fria, porque faz bem pra pele.

Mas é pura sabotagem. Autosabotagem. Self-sabotagem. Porque é sempre o contrário. É sempre atraso. Sempre desilusão comigo. Sabotagem todos os dias. Infernal.

1, 2... no 3, grite!


Não use

24nov09

Se você é mulher, bonita e preza pela boa aparência e elegância, não use o objeto abaixo (vulgo: piranha) em público. Destrói qualquer roupa.

No salão e em casa pode.

 


Scream poetry

19nov09

Digamos que tem muito tempo que eu não sei o que é ficar em casa de noite. Chegar da rua e ver novela. Falar ao telefone deitada na cama. Ouvir as músicas velhas que me completam e me fazem feliz há muitos anos. Fazer as coisas tradicionais, de sempre. Hoje estou assim (mas logo já vou sair de novo).

Eu posso sentir o que a paixão faz em segundos. Eu posso sentir o que o amor fez em questão de anos. Eu gosto de sentar nos telhados pra ouvir o que as casas dizem ao meu redor. Grite poesias. Scream poetry. A febre de um sábado azul, te esquiva do teu próprio coração. O que eu posso ser pra você? O primeiro homem a pisar no sol… só pra ver o gelo da dor derreter.  Eu trago um anjo nos braços, e outro no coração. Sempre atrasada, sempre iludida. O tempo, os homens, a marca de noites e dias mal vividos, nada disso te perdoou.  Tudo está no lugar em que não devia. Dias são iguais. Um estranho no espelho, eu quase não me conhecia. Não há do que reclamar, tudo caminha… E as horas passam devagar num ônibus de linha.

Ver você, é ver na escuridão.

eu gosto de subir nos telhados porque eu consigo ver o mundo melhor

Pensar que tudo isso vem do disco Hey na na (dos Paralamas) que escuto há mais de dez anos. O que muda em dez anos?