Poros
14/04/2011
Enquanto ele mantinha a porta aberta, ela ia fechando todas, inclusive as janelas. Lacrava quase tudo o que pertencia ao reino do coração, ao micromundo que construiu com ele. Ela fechava, ele abria. Ela lacrava, ele corria. De súbito percebeu-seu louca ou quase. Mosca que persegue gente, sabe? Era uma delas. Aquelas moscas-mosquitinhos loucos que nos infernizam ao rodopiar. Rondam em tudo. Querem entrar dentro de nós, esses mosquitinhos. Rondam nossos olhos para comê-los. Querem entrar em nossas peles como se coubessem nos poros. Era o que ela sentia às vezes – vontade de entrar tanto dentro dele que era melhor se pequena como um poro, escorrida como um suor, ser fina como um pêlo, redonda como uma pintinha, ardente como bicarbonato de sódio.
