Eu continuo chorando e soluçando como eu soluçava. Da infância me lembro muito desses soluços. Depois da hecatombe do choro, eles continuam por horas e horas, até que o motivo de choro tenha passado, tenha sido deglutido, ainda que superficialmente. Eles vêm de três em três solucinhos por vez e interrompem a minha fala. Depois voltam. E eu continuo a mesma menina da infância. A mesma mulher de sempre. Nunca tive que medir tanto os meus passos como agora. Ao falar, minha voz muda, porque eu não sei em que ovos piso. Se estão podres ou não. Se são falsos como plástico ou quentinhos como os cozidos. Não sei entre quais estou. Pela claridade de uma lâmpada não consigo saber se são translúcidos ou o que preparam ao sair da casca.

Estou cega e não sei andar.

Tentando ser como sempre fui, tive que virar outra. Essa é mais falsa. Essa outra tenta caminhar com um escudo. Olha mais para dentro. Parece ter um verme dentro de si, porque está sempre morta. Sorri pouco e não sabe a hora certa para falar nada. É considerada má. Monstro.

Um monstro leve que anda sobre ovos.

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