Um dia
15/07/2010
O velho que passou tinha um cheiro de banho, de sabonete barato.
Na escola, o jardineiro rega um pé de crianças no jardim. Elas crescem.
No ônibus, com olhar perdido, sinto cheiro de mendigo às nove da manhã. O homem fedido já cedo cruza a roleta. Some no corredor. Meu olhar perdido debaixo dos óculos deixa cair uma gota de desespero.
Observo com ternura a recém-grávida fazer seu primeiro gesto maternal ao passar a mão nos cabelos da menina. Agora é mãe sem nem perceber. Já aguçada, sua nova intuição de mãe pergunta-me se está tudo bem. E diz que tudo vai ficar bem. Corro pro banheiro e choro três chorinhos em si bemol.
Não me visto bem há dias.
Na fila do almoço, dois chorinhos e cenoura ralada. Um pensamento sussurra: se você não fala nada a culpa é sua.
Diante do espelho, realizo que meu cabelo já cresceu o suficiente para pintar e cortar de novo. Pensamento em cabelos loiros.
Na copa, o cheiro de café diz que é bom. Sinto falta de comer pão de queijo.
A rua escura. A volta para casa. O velho que passa com cheiro de banho é ilha entre a fumaça.
Esgota-se.
Os dias da semana são um sentimento,
22/04/2010
é o que nos ensina um feriado que cai na quarta-feira. Duas segundas-feiras na semana – travestidas de quinta-feira. Duas sextas-feiras, sendo que uma é terça e outra é ela mesma.
Os dias da semana são um sentimento – concluo. Se você está de férias, todos os dias podem ser a pura possibilidade de um sábado, ou aquela coisa de domingo. Se o trabalho é fim de semana, o sentimento é outro. Se é manicure, sua segunda é o domingo.
São sentimentos, os dias. Porque não há nada que realmente nos impeça o acesso à felicidade durante a semana (para aqueles que cumprem horário comercial), mas é só a sexta às 18h que nos consola. E o domingo que entristece. Será?
Que dia é dia de copo de cerveja? Que dia é dia de visitar exposições, museus (você conhece os museus da sua cidade, ou só os de Paris e Londres?). Que dia é dia de respirar fundo e lembrar que és feito de carne, senão todos?
Quero ter olhos pra ver
04/02/2010
São quase oito horas da noite. Mas o sol não se põe cedo ultimamente. A cidade está em chamas, agitada – hoje é dia de jogo no Mineirão. Quase oito da noite e a cidade que não queria descansar. E o sol também não ajudava em dar logo lugar à calma luz da noite. Quase oito horas, e o horizonte esverdeado. Com um contorno de nuvem cinza de contraluz. Nunca tinha visto um céu assim – tão verde, de bordas cinzas e luzes laranjas. Era sol de oito da noite na cidade do horizonte bonito que não se vê. Ao redor prédios e prédios. Da janela do ônibus quase não se vê. Esforço grande do olhar de quem não quer ficar preso na rotina de quem só olha para os pés e só para aquilo que alcança os olhos na altura do ombros.
Olha mais. Olhar mais, por favor! O céu está verde e ninguém viu. Era medo ou ignorância, ou cegueira. Ou era alucinação minha. No trânsito lento da cidade do belo horizonte. Da janela do ônibus quase não se vê se não fizer o esforço de olhar.


