O palhaço
29/05/2010
Chorou 40 dias e 40 horas com os olhos pregados, abertos na escuridão. Da meia-noite em diante contava todos e cada segundo, até o amanhecer. De dia ladrava sem dono, fazendo rir a quem passasse ou a quem ficasse. Era palhaço de circo. Aprendera o ofício porque tinha nascido feio: só lhe restava ser engraçado. Com o passar do tempo e o tilintar dos dias, aprendeu e desaprendeu a escrever cartas de amor, “apesar de ainda amar” – dizia.
De noite, ladrava no escuro, chorando com a falta de sol nascer. Com os olhos pregados mirava a escuridão com o desapego típico das crianças. Por outras, fitava o nada com a ausência típica do olhar dos mortos. E pedia socorro a lágrimas de baixa estatura. Como podia amar aquilo tudo o que amava? E chorava, em companhia das lágrimas, a morte da mulher branca com nome de índia. Mesmo depois de 12 anos, chorava.
Nas noites, sempre às onze e quarenta e cinco, chorava um firme choro de bebê. Na janela vizinha, o choro da criancinha era um relógio. “Que susto do mundo”, dizia o chorinho do recém-nascido.
Tentava pensar pouco, porque quando pensava, era demais. “A reinvenção é a arte do dia a dia”, declarou em profecia. Era palhaço, mas triste, na falta de beleza, precisava trocar de roupa para se reinventar. Despentear o cabelo. Seguir a pauta da linha, aprender a ler no escuro. Era inventar de novo. Apagar, esquecer, liquidar. Era a busca perdida na infância, na adolescência, na mocidade: a pura possibilidade. Não sabia onde encontrá-la. Poderia chamá-la de sinônimo real de liberdade.
Queria voltar atrás e partir de uma teoria nula e pura. Possibilidade.
Era um pesado dia perdido no meio de maio.
